Sinfonia das Águas por Ruby White - O Conto da Sereia Apaixonada


Autora: Ruby White

Gênero: Conto (Romance lésbico)

Ano: 2020

Disponível: Wattpad e Inkspired

Sinopse: Entre seu fascínio pelo desconhecido e sua falta de empatia pelos humanos, Esmeralda se vê apegada em uma humana que tentou afogar. Yasmin para ela era como uma estrela que ilumina o Céu sem ao menos notar o quanto sua existência pode afastar as sombras de um coração calejado pelo tempo.


A atração era inevitável e os sentimentos imprevisíveis demais para serem controlados por um destino cruel.


Uma lágrima vale bem mais do que declarações com palavras vazias.

As emoções são tão passageiras quanto as nuvens que são tragadas pelos ventos de um lado a outro. Poderia tentar controlar as suas emoções e seus sentimentos, e menos livre te tornaria. Apenas as mentes sonhadoras são capazes de viverem nas nuvens e somente os corajosos são capazes de suportar uma tempestade estando à deriva.


Yasmin encarou as marés com expectativas fulgentes de uma criança em êxtase ao ver o mar pela primeira vez. As ondas vinham serenamente até a costa da praia respingando na areia quente.


Seu rosto tranquilo transformou-se na expressão amarga quando se lembrou do quanto seu coração havia sido corrompido e maltratado ao ponto de comprimi-lo em seu peito. Era desajeitada e seu corpo era grande demais para caber em vestidos pequenos e apertados. Seria a última vez que sentiria tão enfadonha comparada às outras meninas.


“Eu sei que sou tão feia e suja, mas peço que me aceite, porque eu não sou capaz disso”, sussurrou.


Seu pequeno barco a esperava com um lampião já aceso. O pôr-do-Sol brilhava no horizonte se despedindo de mais uma tarde quente. Remou e remou. A luz fraca do lampião iluminado sua silhueta em meio a escuridão que a engolia aos poucos.


O anseio de chegar ao seu destino aumentou conforme não restaram mais ondas para enfrentar para seu objetivo final. Carregava uma flor atrás da orelha para que desse boa sorte. Não desistiria e nem resistiria. Seu vestido colado no seu corpo e as lágrimas silenciosas inundavam sua face.


“Senhor dos mares e das marés, eu peço que me aceite como sua. Não sou de ninguém, e por mais que me importe com meus pais e meus irmãos, ele nunca entenderiam que não posso ser quem eles pensam que sou”, soluçou.


Não era a lenda sobre as esposas que o mar pegava para si que a consolava. Desejava que fosse levada para tão longe que não se recordaria de nada que a amedrontasse ou a deixasse insegura. Queria uma nova chance de fazer tudo certo dessa vez.



A criatura a observou furiosa. O que faria um pescador no mar naquela hora? Ela os odiava. Já bastava que pescassem durante o dia, antes mesmo que amanhecesse. Por que estaria ali, afinal? Para caçá-la? Fazia tanto tempo que evitava a superfície, que não entendia como saberiam de sua existência. Os mares reagiram às suas intenções, iria afundá-lo e afogá-lo antes que ousasse tocá-la.


Os Céus se fecharam naquele instante e os trovões cortaram a visão límpida das estrelas, impedindo que brilhassem mais que eles. As gotas caíram como martírio no mar quieto transformado na ira implacável das águas.


Yasmin entregou-se no momento que a tempestade começou. Seu corpo chocou-se na água, afundando lentamente. Duas mãos estranhas a seguraram pelos ombros, e se perguntou quem seria o ser inconveniente que tentava salvá-la.


Somente percebeu seu engano quando as mãos que a cercavam apertaram seu pescoço e a puxou para o fundo do oceano[1] tão rápido que já não sabia o quão longe estava. Seus pulmões cediam a forte pressão da água, debateu-se sem saber o por que. Era o queria, não era? Abriu os olhos sem enxergar nada, e voltou a fechá-los.


Parou de se debater. Talvez o Senhor do mares realmente existisse e a havia a tomado para si. Todo o pavor, tristeza e medo desapareceram em um estalar de dedos.


Finalmente seria livre.


As mãos que a puxavam para baixo afrouxaram o aperto e não estava mais afundando. Abriu os olhos de novo vagarosamente e olhos incandescente a encaravam com a mais completa confusão. Yasmin percebeu quer o que fosse aquilo era muito maior do que parecia. Sentiu a água movendo-se a sua volta, como se ela, julgou ser “ela”, estivesse muito próxima e seu corpo fosse grande o suficiente para cercá-la ou esmagá-la se quisesse em instantes.


Encontrava-se fraca demais, tinham se passado apenas alguns segundos desde que caíra na água, mas tudo parecia durar uma eternidade. Abriu a boca em busca de ar, o que havia se mantido firme em preservá-lo mesmo que inconsciente. E adormeceu tão calmamente que o som das ondas batendo na costa como uma canção de a ninar, antes que acordasse assustada com um caranguejo que passeava pelos seu cabelos, semelhante a um despertador pontual.


Perguntou-se o que havia acontecido. O que lembrava era verdade? A memória dos olhos que a encarou de volta era algo tão forte que não poderia ter sido imaginação sua. Sentiu uma forte conexão ao olhá-los e daria tudo o que tinha para vê-los de novo. Teria sido aquela criatura que a tenha salvado? Mas por que?


Esmeralda, esse era seu nome, vagava por aqueles mares há muito tempo e era a primeira vez que um humano a olhava sem nenhum pavor. Admitiu que desistiu de afogá-la Não fazia ideia o que uma garota daquela idade estava fazendo no mar aberto com nada além dos remadores e um lampião que já estava no fim. Seria de um navio naufragado? Provavelmente, não.


A sereia observou ao longe seu corpo adormecido na praia em busca de uma resposta. E ela não acordou até que fosse de manhã. Viu que olhava em sua direção, como se soubesse que estava ali mesmo que não a enxergasse daquela distância. Havia a deixado onde lhe pareceu correto e gostou que não fosse uma das praias cheias de lixo como muitas são.

Bastava toda a poluição dos rios e mares, além dos derramamentos de óleo que sufocava e envenenava tudo o que pudesse tocar.


A vida marítima sangrava por causa dos humanos.


Entendia porque suas ancestrais os atraiam e os afogavam. Eram criaturas que só pensavam em si mesmas, e eram incrivelmente hipócritas e ignorantes.


Então os dias que se seguiram, voltou àquela praia, e uma flor, a mesma que havia visto boiando no dia que tentara matar a humana, chegou até ela. Quando decidiu saber de onde vinham, viu a pequena humana as deixando nas ondas. Isso durou semanas. Era sempre antes de escurecer. Ela nunca ficava mais que alguns minutos e ia embora.


Questionou-se do por quê ela fazia aquilo. E sem perceber estava esperando que ela viesse e deixasse sua flor. Logo, em um dia de chuva, raro naquela região, ela não veio. Era óbvio que não era seguro para a humana, mas, por alguma razão sentiu falta da flor que receberia naquele dia.

Yasmin tentou em vão se comunicar com a criatura, entretanto não obteve nenhuma resposta. Sabia que era real e não desistiria. Deixou um narciso todos os dias para criatura. Começou a ir sempre no mesmo horário do dia, pois era o único que tinha disponível. Estudar e trabalhar ajudando sua mãe não era muito fácil, porém isso ajudava com a situação em casa. Começou a sair antes de anoitecer e voltar dando desculpas esfarrapadas, que ninguém acreditaria, mas todos trabalhavam o dia inteiro, então deixavam passar.


No dia que não pôde ir se sentiu imensuravelmente culpada. Ofereceu uma flor diferente para se desculpar: uma violeta. Queria conhecê-la mais e seu desejo foi levado pelas ondas em uma mensagem simples e sincera. Viu que uma cauda muito grande bateu na água. Tinha certeza que só ela era o dobro do seu tamanho. Era escura e mais semelhante com o corpo de uma cobra do que de um peixe. Especulou que seria uma sereia, contudo aquilo não parecia ser uma, não é? Isso deixou Yasmin amedrontada e fascinada ao mesmo tempo. Lembrou-se pouco de sua fisionomia. Apenas seus olhos e a sensação de estar cercada marcara sua mente,. Como seria aquela criatura sem estar na escuridão do oceano?


Esse foi primeiro contato entre as duas que fosse amigável.

Esmeralda queria saber por que aquela humana colocava aquelas flores para ela. Era para ela, não era? Sabia que sim. Dessa vez sentiu-se inspirada a corresponder àquelas mensagens. Mostrou-se para humana, e invés de recuar ou se assustar, Yasmin sorriu em sua direção. Um vínculo, frágil e sem nenhuma cor tinha sido criado. Era singelo e cheio de desconfianças.


Ao ver a garota ir embora, a sereia decidiu segui-la através da água onde a sentiu mais perto. Conseguia reconhecer sua essência em qualquer lugar depois que criou familiaridade a ela. Foi fácil encontrá-la. Localizava-se em um rio fedorento e raso. Fazia bastante tempo que tinha visto as casas humanas tão perto assim. Eram tantos odores que se sentia confusa. Queria ir embora, e mesmo assim ficou.


Um rastro de emoção que definitivamente era direcionado a ela se manifestou em seu âmago. Antes o ignorava, e cortava aquele contato. Dessa vez não foi capaz de o fazer, foi estranho ter que ir embora. Não poderia fazer nada se ela não a ouvisse cortejar.