Almas Quebradas: Capítulo I- A saciedade de um desejo Parte II


A manhã seguinte havia sido um pesadelo. Aqueles olhos não saiam da minha cabeça, pareciam me fitar para onde quer que olhasse. As suas últimas palavras antes de ir pareciam flutuar a minha frente. Não consegui pregar os olhos nem para ter o mínimo de sossego em meus sonhos. Que por algum motivo nunca lembrava o que de fato sonhava, mas sabia que era bom. Muito bom para dizer a verdade.


Levantei sonolento. Meu quarto parecia uma bagunça. Não lembrava como aquilo havia acontecido. Minha blusa coberta de restos de comida mal digerida estava no chão como se tivesse sido jogada às pressas.


― Sinto muito. Não vou conseguir te usar, sabendo por tudo que você passou ― suspirei, lastimando por minha perda e a descartando no lixo.


Sabia que não havia ingerido mais que meia taça de vinho, mas teria que admitir que uma ressaca em pleno dia de semana era novidade. Raramente ficava bêbado e nunca tinha ressaca. Nunca mesmo.


Estava usando somente meu blusão de dormir e um samba-canção. Entrei no chuveiro do banheiro do meu quarto enojado por saber que até mesmo meu cabelo fedia.Já despido, esperei que a água quente escorresse pelo meu corpo e relaxasse meus músculos tensos pela má qualidade de sono da noite anterior. Fechei os olhos na esperança que aquele cansaço fosse embora junto com a água que descia pelo ralo.


"Tudo parece ter mudado em você, Mestre Christian. Para melhor, devo-lhe informar."


Não havia ninguém ali, mas tinha certeza de ter escutado alguém falar.



Abri os olhos, assustado. Ainda escutando a risada rouca como se gatos estivessem arranhando um quadro negro por pura diversão.


"Não se preocupe. Estou apenas me saboreando a companhia do meu Mestre."


Então tudo passou pela cabeça como um flash de luz. Aquilo da noite anterior realmente havia acontecido, finalmente compreendia ao reconhecer a voz. Afinal, coisas estranhas sempre aconteciam naquela cidade, e essa era a de longe a mais estranha. E percebi que aquela criatura parecia ecoar na minha mente, não em outro lugar.


― J-Josh...? ― chamei incerto.


"É impressionante que os humanos esqueçam o seu nome, mesmo que dedique sua alma a eles, não é, Mestre Christian?"


Engoli em seco, na esperança que ele me dissesse como se chamava.


"Você deveria lembrar o meu nome já que me recordo do seu. Escolhi justamente esse nome por ser o mesmo do seu pai, Mestre Christian." ele reclamou ao ver que eu não me lembrava.


― Jonathan?


"Prefiro que me chame de John. Deve soar bem mais autoritário saindo de sua boca."


― John?


― Eu estava certo que meu nome soasse bem excitante na sua voz, Mestre Christian.


― Não pensei que estivesse falando nesse sentido... ― completei mais baixo ― Mas o que posso dizer de alguém que fica me olhando tomar banho... Calma, sua voz não está mais na minha cabeça.


― Claro que não. Estou olhando diretamente para você.


Girei o corpo na direção que supus que ele estivesse e me dei de cara com seu rosto, aliás o meu rosto desenhado nos vapores que se pregavam no box do banheiro. Achei surpreendente que seus olhos ainda fossem do mesmo jeito que me lembrava.


― Finalmente vai parar de me chamar de "Mestre" o tempo inteiro? ― perguntei enquanto saia rapidamente do box e pegava a minha toalha para que ele parasse de me observar enquanto ainda estava nu.


― Ainda estou te vendo, Mestre Christian. E provavelmente não, já que um dia ainda vai se excitar apenas por me ouvir chama-lo desse jeito. ― disse ao surgir no espelho do banheiro.


― Você fala muito para um espelho.


― Não sou um espelho.


― Então o que você é? ― questionei curioso para ouvir a resposta.Abri o closet escolhendo a roupa que usaria. Não teria aula naquele dia, mas iria sair com Meir mais tarde. Sorri empolgado.


― Vejo que o senhor está interessado em mim. É o primeiro avanço na nossa relação. ― respondeu, risonho.


Desapareceu do banheiro, e voltou a sua forma inteira quando andei até o quarto e avaliava sobre a roupa que iria usar na frente do espelho.


― Não temos um relacionamento de qualquer tipo. E você poderia se afastar um pouco, ou pelo menos imitar o que eu faço para ver qual roupa fica melhor? ― Falei confuso pelo fato dele ter as minhas características e segurar as roupas assim como eu, mas não se espelhava no que eu fazia.


― Ainda. ― parou por um segundo. ― Você ficaria bem melhor sem roupa alguma.


― Eu tenho um namorado, ok? ― falei instintivamente mais baixo.


― Namorado? Sabia que teria mais chance na forma de um homem. Estava certo novamente.


― O quê? Você pode mudar suas formas, então?


― Claro, mas somente quando firmar seu contrato comigo. Agora não passo de um reflexo partido seu.


― Por que partido?


Ele me encarou e não disse mais nada.


Coloquei a minha roupa por cima da toalha, olhando de soslaio para ver se ele ainda observava.


― John?


― Estou aqui, Mestre.


― Se você não é somente um espelho o que mais você é?


― Já me deram muitos nomes. Mas o que sua tia me chama realmente me agrada. ― falou sarcasticamente com um sorriso convencido.


― Do que ela te chama?Coloquei a última peça que faltava que era a calça jeans preta que havia escolhido.


― Calma, então minha tia também vê você? Na forma dela ou na minha?


― Ela me via na forma da minha antiga mestra, pois como ela não é minha escolhida, não é capaz de refletir sua alma em mim.Parei por um momento.―


Então ela vê a minha mãe?


― Sim, Mestre.


― É assim que você sabe quem é o seu Mestre ou algo do tipo?


― Não, eu...Toc toc. Virei rapidamente na direção da porta. E olhei para o espelho e suspirei aliviado por saber que ele não estava mais ali.


― Chris?


― Oi, Vó. A senhora quer alguma coisa? Estou terminado de me arrumar.


― Sim, você já está vestido?


― Estou, sim.


― Estou entrando.Minha avó entrou devagar no quarto me procurando com os olhos.


― Ah, aí está você.Ela analisou a roupa que eu vestia, e perguntou:


― Você vai sair? Achei que passaria o feriado em casa para fazermos maratona da série que você gostaria que assistíssemos...


Peguei um dos meus All-Star que batia até metade da minha panturrilha e soquei a barra da calça por baixo do tênis.


― Você vai sair com suas amigas? ― perguntou ao caminhar em minha direção e encostar a porta.


― N-Não...


― Com que você vai sair? Você sabe que não pode andar por ai saindo com estranhos, Christian!


― Mas, vó. Ele é da escola. É um amigo...


― Amigo? Quem é ele? Você nunca comentou sobre nenhum amigo, e não mencionou nada no jantar de ontem.


― C-Começamos a conversar recentemente.


― Você está gaguejando. Conte a verdade.


― Essa é a verdade. ― respondi nervoso.


Olhei na direção do espelho para me ver por completo, e os meus olhos se mexiam em deboche. Ele não havia ido embora.


― O nome? ― ela olhou inquisidoramente para mim ao levantar uma das sobrancelhas.


― Menêsis Bellator. Ele é um aluno exemplar da escola, duvido que seja um serial killer interessado nos meus órgãos.


― Sei... Conheço a família dele. Só quero que não se aproxime demais, ele não é uma boa companhia para você.


― Vó, a senhora nem o conhece...


― Mas conheço os pais dele. Quero que essa seja última vez que o alerte sobre ele.


Ela virou-se com raiva e antes de passar pela porta, sussurrou, mas escutei com clareza o que ela havia dito.


― Duvido muito que ele que não tenha segundas intenções, sejam quais forem.Questionei-me internamente, enquanto minha vó batia a porta e escutei suas fortes passadas pelo corredor.


― Parece que você vai ter um encontro hoje.Franzi a testa.


― Sua avó está certa. A família dele tem um passado longo com a sua, e não deveria se envolver, sendo que essa herança também é passada a ele.


― Do que você está falando?


Antes que ele respondesse meu celular tocou.


Era o Meir.


"Você sabe que estou te ligando já tem um 20 minutos, não é?"


― Desculpa, estava tomando banhando, estou saindo agora, tudo bem?


"Amor, não demore. Já estou suficientemente com saudade, e estar te esperando prolonga minha tortura."


― Não vou.


Desliguei o telefone com o coração palpitando de felicidade.


― Você fica tão vermelho assim por causa de uma ligação?


John ainda estava ali. Ele colocou uma mão na cintura enquanto a outra estava pressionada na cabeça como se tivesse pensando realmente na resposta daquela pergunta.


― Eu gosto dele, não posso fazer nada quanto a isso. E o que aconteceu com "Oh Mestre Christian"?


― Já sentiu saudade de como te chamava? Enfim, estarei aqui quando precisar. ― Ele sumiu como a da primeira vez, contudo o último a sumir foi um sorriso diabolicamente sarcástico, e tive a leve impressão que ele estava tramando algo.


Peguei meu celular e minha carteira e saí apressando até a cozinha. Essa era uma das partes da casa que mais gostava. Esse era o cômodo mais recentemente reformado. Um lugar bem mais aconchegante para três pessoas se reunirem toda manhã. Havia uma pequena mesa com seis cadeiras e a cozinha ficava ao lado.


Agradeci mentalmente que não fosse nela que jantássemos toda noite, senão ainda teríamos a vivida memória do vômito da minha tia.


― Chris? Poderia, por favor, não correr pelas escadas. Estou com uma ressaca daquelas.


Parei ainda na base da escadaria. Minha tia parecia ter se lavado, o que era um alívio. Seu cabelo ainda estava úmido e usava um blusão do Nirvana.


― Poderia fazer mais barulho se fosse assim. Você estragou minha blusa favorita. ― estreitei os olhos.


― O quê? Como assim? ― Ela olhou para a minha avó em busca de resposta e voltou-para mim, em clara desistência. ― Tudo bem, ok? Depois te compro uma igualzinha amanhã para você? Está combinado? ― Esticou seu dedo mindinho para mim.


― Vou sair amanhã.


― Também? ― questionou minha avó, que fritava ovos do outro lado, na cozinha.


― Você vai sair hoje? ― Minha tia averiguou com uma expressão bem semelhante que a da sua mãe minutos antes.


― Sim...


― Espero que não esteja de namoro, quero conhece-la e aprova-la antes que a situação piore.


― Tia, a senhora sabe que não saio com ninguém. Não vou me dar o luxo de ter a mesma vida amorosa fracassada que a sua ― respondi, irritado.


"Pegou pesado dessa vez. Merecido de qualquer forma." Riu, John. Na minha cabeça. De novo.


Resmunguei baixinho e abri a geladeira pegando uma maça e o leite para tomar com café.


― Pelo menos você nunca mentiria para nós. Estou de olho em qualquer uma que tentar roubar meu sobrinho preferido de mim. ― brincou, minha tia com um sorriso triste. Segurou com força a compressa de gelo que segurava na cabeça.


Sabia que havia tocado em um ponto delicado. Todos os seus oito ex-maridos ou estavam mortos ou com as antigas amantes que se tornaram atuais. Todos fracassados de alguma forma.


― Achei que estivesse com ressaca demais para falar qualquer coisa.


Ela tentou retrucar, mas logo desistiu.


Tomei rapidamente o café, e levei a maça para comer no caminho. Despedi-me das duas, que não ficaram satisfeitas por eu ter saído, e fui o mais rápido que pude até a estação de trem que tinha ali perto.


― Achei que não viria. Estava morrendo de saudades.


Meir veio na minha direção com os braços abertos. Estava usando um óculos escuro que combinava perfeitamente com seu rosto anguloso. E uma jaqueta de couro que o deixava ainda mais sexy.